Latest Entries »

Desce ardente lava, fusão que esvai dos vulcões.
O mar azul desvanece; ondas agora são rubras;
coradas; sentem pejo de que o magma as cubra.
A cascata de lampejo ígneo arde aos borbotões.

Em jatos… Cores quentes no azulejo do oceano;
tintas vermelhas ressumam ;navio já é fantasma.
Centelhas, brumas de fogo, exalam mil miasmas.
Não há viva alma para chorar ao léu o desengano.

Um véu de fumo encarnado cinge todo o horizonte.
Tinge nuvens, são algodões embebidos de sangue.
Feroz cena estendida: do céu, terra até o mangue.
O aceso lume não desculpa nenhuma das fontes…

Daí esculpe no cenário flamas de um matiz unicolor.
Ave que se salvou por um triz agradece suas asas.
Pernas pra que te quero foram cair em covas rasas.
E já nada respira, chama não perdoa, nem faz favor.

Rosemarie Schossig Torres

Anúncios

Corazón Bilingüe

El mundo es ancho y ajeno,
como dijo el autor peruano.
Mi amor vino del mismo confín…
Desde Callao con su maletín.
Me presentó Bryce y Vallejo,
y yo a él: Jorge Amado, de Bahía.
Hoy somos ”hueso y pellejo”,
dos hambrientos por Ciro,lleno,
de nuestra pura Alegría.
Ahora cantan Gil y Caetano
al compás del cajón…
Porque es bilingue mi corazón.

En virtud de esa nueva directriz,
unas veces con cierta ambiguedad,
que mi cerebro, pobre infeliz,
un día compone en portugués,
y en el siguiente,escribe en español,
tanto que,de los dos volvió feligrés,
y en una extraña complicidad,
acabó incorporando el ”portuñol”.
Lenguas que evocan viejos amores…
y el corazón prueba nueva harmonía
legado de versos inspiradores,
por eso tiene la doble ciudadanía.

Rosemarie Schossig Torres

Surdina


À surdina as rosas florescem
sem um jardineiro ao seu lado.
Silenciosamente elas crescem,
vingando-se da falta de cuidado.

Sem ruído brotam seus espinhos,
E sem aviso prévio, num repente,
Em trincheiras, intricados ninhos,
o vergel se alarga inesperadamente.

E num roldão, vai comendo o mato,
desgovernado emaranhado de flores,
Que despojado de carinho ou trato,
pinta o agreste de imprevistas cores.

Jardim improvisado, ambulante,
Que mesmo desprovido de pés,
vai ganhando estrada, a seu talante,
e não poupa nem os igarapés…

Rosemarie Schossig Torres

Os Ardis Do Tempo

O tempo passou e ninguém viu.
Vento que desfolha calendários,
vai despetalando as horas, a fio.
Uma por uma, feito um rosário.

Tempestade de areia importuna,
revoluciona a minha ampulheta.
Ranheta aciona as pás a fortuna.
No fim faz o que dá na veneta…

Velozes voam os dias, de roldão.
Deixam só no borrão os sonhos,
qual pipa que não sai do chão…
Restam miúdos planos tristonhos.

Prestos, vão precários anos, no ar.
Cai no desvão desse deserto diário
a semente que eu pensei plantar… 
Nem sei aonde me leva esse fadário.

Só o espelho nada esconde de mim.
Em sua face burilada vejo a verdade:
As linhas que nascem sob o carmim;
ardis do tempo, sabotando vaidades.

Rosemarie Schossig Torres

Legados Turvos


Trago em mim porções espectrais, 

Lúgubres, que soem ser soturnas. 
Arquétipos e esfinges ancestrais, 
Que assomam em horas noturnas. 

Digladiam Lúcifer e o anjo Gabriel. 
Eterna dualidade. Auréola? tridente? 
Às vezes sou doce; outras, quase cruel. 
Lilith ou Eva: sou a maçã e a serpente. 

Do Barba Azul herdei o armário, 
onde oculto minha pior travessura 
Ali guardo o meu lado ordinário. 
A chave mantenho em cova escura.

Dr.Jeckyll me ensinou a receita 
e desperto outra face; clandestina. 
Gata selvagem; mocinha direita. 
A dupla identidade me alucina.

Ainda tenho a caixa de Pandora 
receptáculo de minhas infrações
Às vezes um sorriso dark aflora, 
revelando minhas contradições.

Rosemarie Schossig Torres

Jardim Sideral

jardim sideral

Vejo em um jardim sideral,
a radiação de misterioso astro,
estrela voraz, luz mortal;
admiro seu eclipse de alabastro. 

Quero os chafarizes brilhantes,
gêiseres de ácido, sulfurados,
de alegria fugaz, diamantes,
queimando os olhos, ofuscados.

Navego pela abóbada celeste
de planetas ermos
e visito o deserto agreste,
lar de duendes enfermos.

Neste mar morto,
campo santo de tíbias e caveiras.
Ossuário de piratas; último porto,
ancoro meu coração sem fronteiras…

E compartilho taças de peçonha acre
com fantasmas de idéias;
sonhos extintos num massacre,
quimeras feridas, cheias de morféias.

Vagueio por uma galáctica nação,
a multidão me ignora;
prefiro a companhia da solidão,
amiga, que me adora.

Rosemarie Schossig Torres


Somos Todos Crianças

Somos todos crianças…
A imaginação solta as tranças.
Pula, gesticula, rodopia…
A esperança, linda, é o guia.

E não há desengano que valha.
A alma se vira; a aflição talha
e fazemos das tripas coração…
Desconhecemos a desilusão. 

Saltitam os olhos no panorama.
Cantarola o coração que ama.
Desvia estorvos; dor contorna.
Adulto que à infância torna…

Rosemarie Schossig Torres

Nas Cinzas Do Tempo Que Perdi


Nas cinzas do tempo que perdi,
ficaram enterrados
os pequenos gestos;
aqueles que ninguém notou.

Também ficou pra trás
o pensamento sonâmbulo,
que segue vagueando ao azar,
sem jamais encontrar repouso…

Transitando em oculto desvão
vigiam as noites insones,
onde um simulacro de mim,
divaga de olhos sempre abertos…

Em marés de tempo perdido
agonizam os poemas,
que deixei de escrever;
os que se afogaram
nas ondas de idéias vãs…

Rosemarie Schossig Torres

Teimosa Chuva

Teimosa chuva. Por que não paras?
O sangue coagula. Oxidadas veias.
E o meu pobre coração mofado,
bate fora do tom. Descompassado.
Todo o alento sucumbe às cheias.
Inspiração afogada; me desamparas.
O dilúvio cresce, choram as vidraças
O céu se cobre com uma capa gris
Gota a gota as ideias são levadas
Perdem-se no ímpeto das enxurradas.
Então, o meu verso emerge infeliz.
Asas molhadas; passarinho sem graça.
Palavras ensopadas; sem paradeiro,
escorem pelos dedos. Tormento.
Nada do que escrevo permanece.
A musa em umidade se desvanece.
Então pergunto ao firmamento:
Porque não pára este aguaceiro?
Rosemarie Schossig Torres

Versos Suados

Pedi à musa, versos de improviso…
E ela, com enigmático sorriso
deu-me um punhado de sementes
e profetizou inclemente:
Escreverás versos suados
como o trabalho de Adão,
depois do paraíso.

Então fiz novo pedido:
Quis ao menos um ornamento.
Mas ela com misterioso acento
deu-me paleta e tintas…
E disse: se belas metáforas pintas
terás adorno suficiente.

Por último solicitei timidamente:
Um pouco de harmonia
e a musa emendou com ironia:
as palavras já tem seu próprio som,
siga o coração, escute seu tom
e farás as rimas cantarem…

Rosemarie Schossig Torres