Vejo a lua. Meu coração conquista.
Ladra do sol, avesso do alquimista,
que torna o raio de ouro em prata
e foge com ele pela avenida Láctea.

Musa selenita de tantas fragrâncias.
Par de minha deusa da inconstância.
Às vezes pródiga; outras, difusa.
Primeiro me dá, depois recusa.

Busco-te. Onde está ambígua diva?
Vaga idéia, de claridade evasiva.
Meus olhos revistam o meridiano.
Na escuridão vejo o sabre otomano.

Flash de menina entre a penumbra.
A folha vazia quase não alumbra.
Deixa no céu teu rastro turquesco
Imprime no verso alento fresco.

A foice ganha outra faixa. Crescente.
Fulges um pouco mais. Adolescente.
Mas o sortilégio ainda não entregas.
Vão clareando as faces negras…

Teu brilho de repente, me adora.
Uma esfera plena; minha senhora.
Então escrevo como quem ama.
Estás comigo. Rimas o céu derrama.

Iluminando em sentido contrário.
Sopra ao redor um vento falsário.
Partem-se ao meio os esplendores,
Tu já tiveste dias bem melhores…

O facho arde em quarto e… nada.
Agora me odeias… Enfadada.
A lâmpada dos astros se apaga.
Apontas para o exílio. Aziaga.

O ciclo encerra e recomeça.
Extremos da mesma peça.
Gêmeos em direção antagônica.
Hoje lauda farta; amanhã lacônica.

Indiferente a qualquer rogo
Impõe suas marés; seu jogo.
e a marionete se move
fluxo e refluxo que chove.

Ondas em um vaivém…
Às vezes aceito o que vem,
Ou a paciência é quem perde
na boca amargo versos verdes.

Rosemarie Schossig Torres

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