Janelas abertas. Irresistível galeria.
Aí entram raio de sol. Bala perdida.
Vida e morte em flutuante romaria.
É válvula de escape para o suicida.
De braços abertos o acolhe, o vento,
Moinho que gira o tempo, tudo muda.
Por onde vem a musa com seu alento
Trazendo música que alma desnuda.
Persiana que encerra o horizonte;
Desvão por onde o ladrão se esquiva
E o sonhador faz do arco-íris ponte,
Enlaçando nuvens e delírios à deriva.
Palco perfeito para alva e crepúsculo,
Que diariamente se exibem, sem reprise
Nesse painel gigante, quadro maiúsculo,
Fazendo um inquebrantável strip-tease.
Os olhos saboreiam matizes inesquecíveis.
Mil cores em mesclas esplendorosas.
a imaginação solta suas tranças invisíveis.
Os pés querem passear nas nebulosas.
Detenho pedaços desse amplo panorama,
O espaço se enquadra nas retinas.
Enlaçada em tão impalpável trama,
Vôo ao sabor de sensações cristalinas.
Absorvo quimeras atreladas ao cenário,
Que distingo nas entrelinhas do infinito
Por este telão vislumbro um alheio itinerário
Para mais além de minha serra azul gravito.
De um só golpe as janelas se fecham
Deixando pela metade esta utopia,
As imaginações sem sua âncora erram
Adia-se o sonho para um outro dia.
Rosemarie Schossig Torres
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