Archive for setembro, 2011


Teimosa Chuva

Teimosa chuva. Por que não paras?
O sangue coagula. Oxidadas veias.
E o meu pobre coração mofado,
bate fora do tom. Descompassado.
Todo o alento sucumbe às cheias.
Inspiração afogada; me desamparas.
O dilúvio cresce, choram as vidraças
O céu se cobre com uma capa gris
Gota a gota as ideias são levadas
Perdem-se no ímpeto das enxurradas.
Então, o meu verso emerge infeliz.
Asas molhadas; passarinho sem graça.
Palavras ensopadas; sem paradeiro,
escorem pelos dedos. Tormento.
Nada do que escrevo permanece.
A musa em umidade se desvanece.
Então pergunto ao firmamento:
Porque não pára este aguaceiro?
Rosemarie Schossig Torres

Versos Suados

Pedi à musa, versos de improviso…
E ela, com enigmático sorriso
deu-me um punhado de sementes
e profetizou inclemente:
Escreverás versos suados
como o trabalho de Adão,
depois do paraíso.

Então fiz novo pedido:
Quis ao menos um ornamento.
Mas ela com misterioso acento
deu-me paleta e tintas…
E disse: se belas metáforas pintas
terás adorno suficiente.

Por último solicitei timidamente:
Um pouco de harmonia
e a musa emendou com ironia:
as palavras já tem seu próprio som,
siga o coração, escute seu tom
e farás as rimas cantarem…

Rosemarie Schossig Torres