Archive for outubro, 2011


Legados Turvos


Trago em mim porções espectrais, 

Lúgubres, que soem ser soturnas. 
Arquétipos e esfinges ancestrais, 
Que assomam em horas noturnas. 

Digladiam Lúcifer e o anjo Gabriel. 
Eterna dualidade. Auréola? tridente? 
Às vezes sou doce; outras, quase cruel. 
Lilith ou Eva: sou a maçã e a serpente. 

Do Barba Azul herdei o armário, 
onde oculto minha pior travessura 
Ali guardo o meu lado ordinário. 
A chave mantenho em cova escura.

Dr.Jeckyll me ensinou a receita 
e desperto outra face; clandestina. 
Gata selvagem; mocinha direita. 
A dupla identidade me alucina.

Ainda tenho a caixa de Pandora 
receptáculo de minhas infrações
Às vezes um sorriso dark aflora, 
revelando minhas contradições.

Rosemarie Schossig Torres

Jardim Sideral

jardim sideral

Vejo em um jardim sideral,
a radiação de misterioso astro,
estrela voraz, luz mortal;
admiro seu eclipse de alabastro. 

Quero os chafarizes brilhantes,
gêiseres de ácido, sulfurados,
de alegria fugaz, diamantes,
queimando os olhos, ofuscados.

Navego pela abóbada celeste
de planetas ermos
e visito o deserto agreste,
lar de duendes enfermos.

Neste mar morto,
campo santo de tíbias e caveiras.
Ossuário de piratas; último porto,
ancoro meu coração sem fronteiras…

E compartilho taças de peçonha acre
com fantasmas de idéias;
sonhos extintos num massacre,
quimeras feridas, cheias de morféias.

Vagueio por uma galáctica nação,
a multidão me ignora;
prefiro a companhia da solidão,
amiga, que me adora.

Rosemarie Schossig Torres


Somos Todos Crianças

Somos todos crianças…
A imaginação solta as tranças.
Pula, gesticula, rodopia…
A esperança, linda, é o guia.

E não há desengano que valha.
A alma se vira; a aflição talha
e fazemos das tripas coração…
Desconhecemos a desilusão. 

Saltitam os olhos no panorama.
Cantarola o coração que ama.
Desvia estorvos; dor contorna.
Adulto que à infância torna…

Rosemarie Schossig Torres

Nas Cinzas Do Tempo Que Perdi


Nas cinzas do tempo que perdi,
ficaram enterrados
os pequenos gestos;
aqueles que ninguém notou.

Também ficou pra trás
o pensamento sonâmbulo,
que segue vagueando ao azar,
sem jamais encontrar repouso…

Transitando em oculto desvão
vigiam as noites insones,
onde um simulacro de mim,
divaga de olhos sempre abertos…

Em marés de tempo perdido
agonizam os poemas,
que deixei de escrever;
os que se afogaram
nas ondas de idéias vãs…

Rosemarie Schossig Torres