Archive for novembro, 2011


Surdina


À surdina as rosas florescem
sem um jardineiro ao seu lado.
Silenciosamente elas crescem,
vingando-se da falta de cuidado.

Sem ruído brotam seus espinhos,
E sem aviso prévio, num repente,
Em trincheiras, intricados ninhos,
o vergel se alarga inesperadamente.

E num roldão, vai comendo o mato,
desgovernado emaranhado de flores,
Que despojado de carinho ou trato,
pinta o agreste de imprevistas cores.

Jardim improvisado, ambulante,
Que mesmo desprovido de pés,
vai ganhando estrada, a seu talante,
e não poupa nem os igarapés…

Rosemarie Schossig Torres

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Os Ardis Do Tempo

O tempo passou e ninguém viu.
Vento que desfolha calendários,
vai despetalando as horas, a fio.
Uma por uma, feito um rosário.

Tempestade de areia importuna,
revoluciona a minha ampulheta.
Ranheta aciona as pás a fortuna.
No fim faz o que dá na veneta…

Velozes voam os dias, de roldão.
Deixam só no borrão os sonhos,
qual pipa que não sai do chão…
Restam miúdos planos tristonhos.

Prestos, vão precários anos, no ar.
Cai no desvão desse deserto diário
a semente que eu pensei plantar… 
Nem sei aonde me leva esse fadário.

Só o espelho nada esconde de mim.
Em sua face burilada vejo a verdade:
As linhas que nascem sob o carmim;
ardis do tempo, sabotando vaidades.

Rosemarie Schossig Torres