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Ode À Falta De Inspiração

O céu escurece, 
é a lua minguante, 
que a seu talante, 
secou as leveduras, 
matou minhas criaturas, 
e a ideia emudece .

Estou na maré baixa ;
verbo com desidratação ,
falta de inspiração …
É a mente que se cala. 
O pobre poeta resvala. 
Nada se encaixa !

Palavras longe da poesia, 
voam tão alto… 
O escritor em sobressalto 
nada contra a corrente ;
pensamento ausente ;
triste página vazia… 

Rosemarie Schossig Torres

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Árvore Seca

Não jogue em mim
essas folhas amarelas,
cãs, outono de teu jardim.
Nem me arrogues deslizes
De reviver as mazelas
ser estigma: cicatrizes.

Eu não sou tuas lástimas
Muito menos raiz de dissabor…

quero deixar o banco dos réus.
Declino esse peso em meu costado;
Carregue sozinho teus mausoléus.
Serei morte, doença, as recaídas?
Não quero meu nome imortalizado
Em dedicatórias de cartas suicidas.

Não chore minhas lágrimas,
Nem sofra com minha dor.

Nunca serei uma árvore seca plantada
no meio de teu caminho.
Quando a última trincheira tenha tocado…
e chegue à folha conclusiva de meu destino
Não faças de refém a minha história. Deixe-me ir…
Na viagem que encerra qualquer enredo: partir.

Rosemarie Schossig Torres

Numa Poesia Cabem

Numa poesia cabem:

o fermento da fantasia,
que faz crescer as estrofes

Um par de asas
Para os vôos da imaginação

Uma lágrima de melancolia,
Que no verbo busca seu ombro.

A voz da chuva
Para cantar as rimas

O carro da filosofia,
que conduz a idéia.

Uma mão de tinta do arco-íris
Para pintar as metáforas

Uma gota de inspiração
vitamina para escrever

O sorriso de uma criança
Porque estão parindo um verso

O baú de um venerável ancião
Biblioteca que cimenta a arte.

A fotografia de um momento
que no poema se revela

O sopro de uma vida
Para oxigenar as palavras

Um beijo de amor
Tônico para o coração do poema

Um lenço molhado de adeus
para a tinta da emoção não secar

O olho aberto da insônia
Porque a noite é boa para escrever

E ao poeta cabe:
Colorir a face lívida
De una página em branco

Rosemarie Schossig Torres

Esqueletos No Armário


O que faço com esse ossuário?
Amontoado de esqueletos velhos
Espiam-me de dentro do armário;
Fantasmas do além dos espelhos.

Na poeira que o chão arquivou:
pedaços de delírios esclerosados;
devaneios que a pele aposentou;
Simulacro dos prazeres passados.

Acumulação de entulhos, escarcéu.
Lembranças largadas no necrotério.
Revelações do ego repetidas ao léu.
A esmo vagueio por esse cemitério.

Como alivio o peso dos ombros?
Restos de mim, já tão danificados,
Somente uma pilha de escombros.
Vivo algemada a tesouros mofados.

Oxidam as idéias; limiar da sucata.
Ainda há pontos de luz na sombra.
Mas a reciclagem é tarefa inexata;
o desejo de ser fênix me assombra.

Rosemarie Schossig Torres

Se tu tens que vir dor
venhas de cânfora untada
garras de veludo amortecedor
E de pelúcia a tua punhalada

Com doce dilaceração
Arranhe-me teu fel
De luva a tua vocação
Ao meu talhe sejas fiel

Se tiveres que me amar, dor
Que seja de mal grado
Paixão breve, sem ardor
Brasa tíbia, fogo cansado

Afrouxe os laços, inimiga
Tua amnésia venha me socorrer
omissão que abriga
E te esqueças do ofício de doer

Quando tudo for inútil
o tempo advogará a meu favor
Então serás traste oco e fútil
e te direi: perdestes o vigor

Agora és página virada
Já andei por teu império
Conheço teus truques, jogadas
Perdestes o poder do mistério

Antes que fechem as portas
beije musa caduca da agonia
mesmo que seja em linhas tortas
em minha pele cansada uma poesia,

Rosemarie Schossig Torres

Por Umas Janelas Abertas…

 

Janelas abertas. Irresistível galeria.
Aí entram raio de sol. Bala perdida.
Vida e morte em flutuante romaria.
É válvula de escape para o suicida.
De braços abertos o acolhe, o vento,
Moinho que gira o tempo, tudo muda.
Por onde vem a musa com seu alento
Trazendo música que alma desnuda.
Persiana que encerra o horizonte;
Desvão por onde o ladrão se esquiva
E o sonhador faz do arco-íris ponte,
Enlaçando nuvens e delírios à deriva.
Palco perfeito para alva e crepúsculo,
Que diariamente se exibem, sem reprise
Nesse painel gigante, quadro maiúsculo,
Fazendo um inquebrantável strip-tease.
Os olhos saboreiam matizes inesquecíveis.
Mil cores em mesclas esplendorosas.
a imaginação solta suas tranças invisíveis.
Os pés querem passear nas nebulosas.
Detenho pedaços desse amplo panorama,
O espaço se enquadra nas retinas.
Enlaçada em tão impalpável trama,
Vôo ao sabor de sensações cristalinas.
Absorvo quimeras atreladas ao cenário,
Que distingo nas entrelinhas do infinito
Por este telão vislumbro um alheio itinerário
Para mais além de minha serra azul gravito.
De um só golpe as janelas se fecham
Deixando pela metade esta utopia,
As imaginações sem sua âncora erram
Adia-se o sonho para um outro dia.
Rosemarie Schossig Torres
Perdeste algum sentimento?
Busca no piso da tua alma.
Ao rés do chão
Entre as pequenas sensações
Que semeias e colhes
Todos os dias…
Perdeste um momento?
Procura num vértice do tempo
Ali onde o vento faz a curva
Quem sabe não caiu por aí…
Perdeste um verso?
Talvez esteja nas entrelinhas
Dos pensamentos que nadam
No mar da sua mente.
Quem sabe não se afogou
Naquele momento perdido
Quando perseguias aquela emoção
Que já não é mais…
Rosemarie Schossig Torres

ANJO


De asas rotas, ambíguo Serafim. 
Foi cair justo em meu jardim, 
ao tropeçar na cauda de um cometa. 
Tem mais dilemas que fé na maleta. 
e agora eclipsa nossa mente. 
Com seu mirar demente. 
Querubim, auréola de metal, 
decaído e hoje é mortal. 
Possui coração falso, de resina 
e uma voz de sereia, que alucina. 
o sorriso é enigmático, de pintura. 
Mona Lisa que saiu da moldura. 
Serafim banido, exilado. 
Imperfeito e desastrado 
Não é deste mundo… 
Seus olhos arregalados e fundos, 
olham tudo, não entendem nada. 
Nosso planeta é sua charada. 
Anjinho travesso. Fugiu do céu, 
pois no Éden armou um escarcéu. 
Tudo porque não crê no inferno. 
Duvida da perfeição e do eterno, 
Desconhece o que seja pecado. 
Por isso se sente tão deslocado. 
De asa partida, preso na terra. 
Ainda procura o Paraíso. 
Busca na praia e na serra, 
Vai aonde for preciso, 
Como não pode mais voar 
Minha casa já é seu lar.
Rosemarie Schossig Torres

Torrão De Açúcar


Atrás do muro
quebrando o silêncio
grita um rumor

Entre a sombra
a luz que escorrega
rasga as trevas

porta fechada
traz no bojo uma chave,
louca pra abrir

fio da lágrima
carrega gota de mel
que quer sorrisos

do meio do caos
desponta um corredor
rumo ao norte

do mar de penas
nasce uma tábua
livra náufragos

chão de exilado
tem sementes de sonho
que urgem brotar

Na gota de fel
um torrão de açúcar
Fim do amargo

Rosemarie Schossig Torres

A imaginação é combustível, carvão.
Fogo místico que alimenta a chama,
Lume criador da divina inspiração.
Aviva a idéia que o verso derrama.

Devaneio, fogueira que me incendeia.
Salva da solidão e contorna o abismo.
A mente trota nas nuvens sem correia,
o corpo, relegado, vaga no ostracismo.

Cruzo tempo e espaço. Vou no vento.
Veículo que conduz ao céu. Mais prá lá.
Sem lei da gravidade. Só em pensamento.
Um guia ao horizonte perdido, Shangri-lá.

Nau para sair do ermo; criar novo arrebol.
Ao zênite cheguei com o quixotesco elmo.
Sou Ícaro em vôo Kamikaze, rumo ao sol.
Volto a bordo dos raios azuis de Santelmo

Rosemarie Schossig Torres