Tag Archive: jardim


Surdina


À surdina as rosas florescem
sem um jardineiro ao seu lado.
Silenciosamente elas crescem,
vingando-se da falta de cuidado.

Sem ruído brotam seus espinhos,
E sem aviso prévio, num repente,
Em trincheiras, intricados ninhos,
o vergel se alarga inesperadamente.

E num roldão, vai comendo o mato,
desgovernado emaranhado de flores,
Que despojado de carinho ou trato,
pinta o agreste de imprevistas cores.

Jardim improvisado, ambulante,
Que mesmo desprovido de pés,
vai ganhando estrada, a seu talante,
e não poupa nem os igarapés…

Rosemarie Schossig Torres

Anúncios

Jardim Sideral

jardim sideral

Vejo em um jardim sideral,
a radiação de misterioso astro,
estrela voraz, luz mortal;
admiro seu eclipse de alabastro. 

Quero os chafarizes brilhantes,
gêiseres de ácido, sulfurados,
de alegria fugaz, diamantes,
queimando os olhos, ofuscados.

Navego pela abóbada celeste
de planetas ermos
e visito o deserto agreste,
lar de duendes enfermos.

Neste mar morto,
campo santo de tíbias e caveiras.
Ossuário de piratas; último porto,
ancoro meu coração sem fronteiras…

E compartilho taças de peçonha acre
com fantasmas de idéias;
sonhos extintos num massacre,
quimeras feridas, cheias de morféias.

Vagueio por uma galáctica nação,
a multidão me ignora;
prefiro a companhia da solidão,
amiga, que me adora.

Rosemarie Schossig Torres


Árvore Seca

Não jogue em mim
essas folhas amarelas,
cãs, outono de teu jardim.
Nem me arrogues deslizes
De reviver as mazelas
ser estigma: cicatrizes.

Eu não sou tuas lástimas
Muito menos raiz de dissabor…

quero deixar o banco dos réus.
Declino esse peso em meu costado;
Carregue sozinho teus mausoléus.
Serei morte, doença, as recaídas?
Não quero meu nome imortalizado
Em dedicatórias de cartas suicidas.

Não chore minhas lágrimas,
Nem sofra com minha dor.

Nunca serei uma árvore seca plantada
no meio de teu caminho.
Quando a última trincheira tenha tocado…
e chegue à folha conclusiva de meu destino
Não faças de refém a minha história. Deixe-me ir…
Na viagem que encerra qualquer enredo: partir.

Rosemarie Schossig Torres

ANJO


De asas rotas, ambíguo Serafim. 
Foi cair justo em meu jardim, 
ao tropeçar na cauda de um cometa. 
Tem mais dilemas que fé na maleta. 
e agora eclipsa nossa mente. 
Com seu mirar demente. 
Querubim, auréola de metal, 
decaído e hoje é mortal. 
Possui coração falso, de resina 
e uma voz de sereia, que alucina. 
o sorriso é enigmático, de pintura. 
Mona Lisa que saiu da moldura. 
Serafim banido, exilado. 
Imperfeito e desastrado 
Não é deste mundo… 
Seus olhos arregalados e fundos, 
olham tudo, não entendem nada. 
Nosso planeta é sua charada. 
Anjinho travesso. Fugiu do céu, 
pois no Éden armou um escarcéu. 
Tudo porque não crê no inferno. 
Duvida da perfeição e do eterno, 
Desconhece o que seja pecado. 
Por isso se sente tão deslocado. 
De asa partida, preso na terra. 
Ainda procura o Paraíso. 
Busca na praia e na serra, 
Vai aonde for preciso, 
Como não pode mais voar 
Minha casa já é seu lar.
Rosemarie Schossig Torres

Canção Para Ninar Uma rosa

A rosa ao vento se despenteia.
Cabeleira agitada no ar glacial.
Qual rubras centelhas, as melenas
caem em procissão.
Pétalas vermelhas, um filão.
sem sangue nas veias
Veste cor invernal.
Rosa lívida em trajes de açucena.
Gota a gota foi dessangrando
a seiva em torrente carmim.
O mundo está em rebuliço;
Vergel convertido em deserto;
Coração a céu aberto.
Voz embargada vai rogando:
Que ressuscite o jardim!
Rosa anêmica. Perdeu o viço.
Plantada no meio do nada
com os espinhos, e mais ninguém,
ela compartilha amarguras de flor.
A tristeza de repente falece
É um doce canto que aparece,
faz a alma sentir-se ninada.
Adormece como um neném.
Rosa acariciada recupera a cor.
Abre os olhos. Vê seu novo amigo,
Ave sem teto nem guarida.
Ainda implume; um passarinho,
que traz nas asas sua canção,
e na garganta um sol, rincão
onde a alma encontra abrigo.
Com ternura, das pétalas caídas
A Rosa feliz lhe faz um ninho
Rosemarie Schossig Torres