Tag Archive: musa


Teimosa Chuva

Teimosa chuva. Por que não paras?
O sangue coagula. Oxidadas veias.
E o meu pobre coração mofado,
bate fora do tom. Descompassado.
Todo o alento sucumbe às cheias.
Inspiração afogada; me desamparas.
O dilúvio cresce, choram as vidraças
O céu se cobre com uma capa gris
Gota a gota as ideias são levadas
Perdem-se no ímpeto das enxurradas.
Então, o meu verso emerge infeliz.
Asas molhadas; passarinho sem graça.
Palavras ensopadas; sem paradeiro,
escorem pelos dedos. Tormento.
Nada do que escrevo permanece.
A musa em umidade se desvanece.
Então pergunto ao firmamento:
Porque não pára este aguaceiro?
Rosemarie Schossig Torres

Versos Suados

Pedi à musa, versos de improviso…
E ela, com enigmático sorriso
deu-me um punhado de sementes
e profetizou inclemente:
Escreverás versos suados
como o trabalho de Adão,
depois do paraíso.

Então fiz novo pedido:
Quis ao menos um ornamento.
Mas ela com misterioso acento
deu-me paleta e tintas…
E disse: se belas metáforas pintas
terás adorno suficiente.

Por último solicitei timidamente:
Um pouco de harmonia
e a musa emendou com ironia:
as palavras já tem seu próprio som,
siga o coração, escute seu tom
e farás as rimas cantarem…

Rosemarie Schossig Torres

Musa Caduca Da Agonia

Se tu tens que vir dor
venhas de cânfora untada
garras de veludo amortecedor
E de pelúcia a tua punhalada

Com doce dilaceração
Arranhe-me teu fel
De luva a tua vocação
Ao meu talhe sejas fiel

Se tiveres que me amar, dor
Que seja de mal grado
Paixão breve, sem ardor
Brasa tíbia, fogo cansado

Afrouxe os laços, inimiga
Tua amnésia venha me socorrer
omissão que abriga
E te esqueças do ofício de doer

Quando tudo for inútil
o tempo advogará a meu favor
Então serás traste oco e fútil
e te direi: perdestes o vigor

Agora és página virada
Já andei por teu império
Conheço teus truques, jogadas
Perdestes o poder do mistério

Antes que fechem as portas
beije musa caduca da agonia
mesmo que seja em linhas tortas
em minha pele cansada uma poesia,

Rosemarie Schossig Torres