Se tu tens que vir dor
venhas de cânfora untada
garras de veludo amortecedor
E de pelúcia a tua punhalada

Com doce dilaceração
Arranhe-me teu fel
De luva a tua vocação
Ao meu talhe sejas fiel

Se tiveres que me amar, dor
Que seja de mal grado
Paixão breve, sem ardor
Brasa tíbia, fogo cansado

Afrouxe os laços, inimiga
Tua amnésia venha me socorrer
omissão que abriga
E te esqueças do ofício de doer

Quando tudo for inútil
o tempo advogará a meu favor
Então serás traste oco e fútil
e te direi: perdestes o vigor

Agora és página virada
Já andei por teu império
Conheço teus truques, jogadas
Perdestes o poder do mistério

Antes que fechem as portas
beije musa caduca da agonia
mesmo que seja em linhas tortas
em minha pele cansada uma poesia,

Rosemarie Schossig Torres