Tag Archive: poesia


Musa Caduca Da Agonia

Se tu tens que vir dor
venhas de cânfora untada
garras de veludo amortecedor
E de pelúcia a tua punhalada

Com doce dilaceração
Arranhe-me teu fel
De luva a tua vocação
Ao meu talhe sejas fiel

Se tiveres que me amar, dor
Que seja de mal grado
Paixão breve, sem ardor
Brasa tíbia, fogo cansado

Afrouxe os laços, inimiga
Tua amnésia venha me socorrer
omissão que abriga
E te esqueças do ofício de doer

Quando tudo for inútil
o tempo advogará a meu favor
Então serás traste oco e fútil
e te direi: perdestes o vigor

Agora és página virada
Já andei por teu império
Conheço teus truques, jogadas
Perdestes o poder do mistério

Antes que fechem as portas
beije musa caduca da agonia
mesmo que seja em linhas tortas
em minha pele cansada uma poesia,

Rosemarie Schossig Torres

Flores Que Invadem Poemas


Quando formigam as cicatrizes,
entrincheiro o coração com flores
e desvio os pensamentos infelizes.
A alma dribla mofados dissabores.

E pelo ar vou com pétalas cor rubi,
em planícies de sonho, sem temor,
Conclamo rimas que não são daqui.
Tempero as odes com verde frescor.

Bálsamo que enleia a dor temerária,
Invadindo a noite. Talvez alva dama,
o seu perfume doe, essência solidária,
que sobre minha madrugada derrama.

Arte de poetas é uma joalheria delicada.
A musa-flor venero. Aprendo seu estilo.
Os cravos me emprestam a lira inspirada.
E exóticos elixires em meu verso destilo.

Vi nenúfar aquático em seu oculto esteiro,
com um róseo rastro, lótus dos olvidados.
Sem pés, bandeja de água por seu canteiro.
Ninféia que bóia em meus olhos cansados.

Perpétuas: lembrança do amor que passou,
com sempre-vivas aflições já faço bromas;
as antigas amarguras que o tempo adoçou.
Hoje cauterizo feridas com novos aromas.

A estrela branca em meus abismos brota,
Lume argentino banha desertos nevados
edelweiss prateando a paisagem ignota
tomba na página qual cometa despetalado.

A margarida sem jardim, o sublime aleli,
a prima pobre; a que cresce em palácios .
Todas as fragrâncias, sândalo e patchuli,
enredam na poesia os generosos braços.

Rosemarie Schossig Torres

Canção Para Ninar Uma rosa

A rosa ao vento se despenteia.
Cabeleira agitada no ar glacial.
Qual rubras centelhas, as melenas
caem em procissão.
Pétalas vermelhas, um filão.
sem sangue nas veias
Veste cor invernal.
Rosa lívida em trajes de açucena.
Gota a gota foi dessangrando
a seiva em torrente carmim.
O mundo está em rebuliço;
Vergel convertido em deserto;
Coração a céu aberto.
Voz embargada vai rogando:
Que ressuscite o jardim!
Rosa anêmica. Perdeu o viço.
Plantada no meio do nada
com os espinhos, e mais ninguém,
ela compartilha amarguras de flor.
A tristeza de repente falece
É um doce canto que aparece,
faz a alma sentir-se ninada.
Adormece como um neném.
Rosa acariciada recupera a cor.
Abre os olhos. Vê seu novo amigo,
Ave sem teto nem guarida.
Ainda implume; um passarinho,
que traz nas asas sua canção,
e na garganta um sol, rincão
onde a alma encontra abrigo.
Com ternura, das pétalas caídas
A Rosa feliz lhe faz um ninho
Rosemarie Schossig Torres